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Anatomia de uma Pergunta

Fevereiro 10th, 2007 by Bruno Ribeiro

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Avaliando a questão que amanhã será colocada aos portugueses, e sem ter em conta questões políticas e jurídicas que possam estar na base da sua formulação, não há outra forma de a classificar que não como má; pelo menos do ponto de vista de uma análise psicológica a respeito do processo cognitivo de resposta que lhe estará inerente. Não coloco em causa que será a melhor alternativa tendo em conta as condicionantes existentes; mas a verdade é que amanhã os portugueses que decidirem votar neste referendo irão responder não a uma mas a 4 questões! Senão vejamos:

“Concorda com a (1) despenalização da interrupção voluntário da gravidez, (2) quando feita até às 10 semanas, (3) por vontade da mulher, (4) num estabelecimento médico devidamente autorizado?”

Como se pode facilmente constatar, aquilo que é pedido aos respondentes é que formem um juízo acerca de 4 temas relacionados; mas que ainda assim são 4 temas e não apenas um!

A interpretação e compreensão da questão colocada é a primeira - e talvez mais importante - tarefa que uma pessoa terá de levar a cabo para a esta responder. Após este processo caberá a cada um formular um juízo de acordo com as suas atitutes e convicções e ajustá-lo às possibilidades de resposta existentes. No caso presente, é pedido que cada um realize este processo para cada uma das quatro premissas.

A existência de mais do que uma ideia numa questão é algo que deve ser evitado, com o intuito de facilitar a tarefa de resposta e também a tarefa de interpretar os resultados a essa resposta - embora aqui esta seja uma preocupação menor.

Com isto não digo que cada uma das 4 ideias expostas na questão tenha o mesmo peso na hora de decidir a resposta a dar; pode bem dar-se o caso de apenas a primeira parte, que questiona acerca da despenalização, seja relevante. Mas a existência de mais 3 ideias é mais do que suficiente para “confundir” o respondente.

A especificidade das questões deve ser sempre um objectivo, mas há sempre que colocar em causa quando esse objectivo quando possa estar a contribuir para complicar o processo de resposta, como parece ser o caso. Pessoalmente, questionaria apenas se a pessoa estaria de acordo ou não com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, deixando os pormenores específicos para decisão da Assembleia da República!

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Posted in Psicologia Social

One Response


  1. [...] de uma Pergunta II Posted Fevereiro 10, 2007 No post Anatomia de uma Pergunta em que analiso a questão que amanhã irá a referendo, referi que a o facto de a questão poder [...]

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